
Deus é um ser todo poderoso criador do céu e da terra.
Nunca me esquecerei dessa definição. E nem da professora, gritando-a aos berros, no auge de uma crise de histeria, provavelmente provocada pela sua virgindade aos 40 anos. Tudo que eu sabia de Deus, é que eu precisava decorar a primeira pergunta do catecismo, porque senão ninguém me deixaria fazer a primeira comunhão, e eu iria queimar no fogo do inferno para sempre. Das outras, eu podia errar algumas, mas essa...NÃOOO!!!
Nunca entendi porque deixavam aquela mulher catequizar, se é que se pode chamar de catequizar, aquelas ameaças e impropérios todos que ela se incumbia de meter na cabeça de um punhado de crianças. Eu estremecia dos pés à cabeça, toda vez que alguém abria a porta da casa paroquial... com certeza eu achava que era Deus, que tinha vindo fazer a segunda voz.
Acordava à noite chorando de medo, pelos pesadelos que tinha. Pouco me lembro deles, mas sei que alguém ameaçava de me mandar para o inferno, e eu via as labaredas devorando tudo, inclusive a professora. Chegou o dia da prova final. Para minha grande alegria, haveriam várias pessoas para proceder a prova oral. Por obra e graça de algum anjo que me assistia lá no céu, fui sorteada e graças a Deus, foi o Padre Ivo, quem me fez as perguntas. Eu acertei todas, claro, porque varei noites e noites em cima daquele catecismo decorando até as vírgulas.
Mas enquanto ele falava, complementando o que estava decorado, sua voz doce era como uma carícia no coração. E eu pensava com meus botões: "pôxa, se Deus é assim, dá até pra encarar. Mas e aqueles berros todos??? Aquele Deus-fúria que a professora disse que manda a gente para o inferno...onde foi parar??? Eu hein? Que fique lá para onde foi..." A essa altura eu batia na boca para ser redimida do pecado, e o padre, se percebeu algo errado, colocou na conta da displicência normal das crianças.
Finalmente chegou o dia da primeira comunhão!!!
Disseram pra gente chegar às 7:30 hs, para ensaiar os cânticos antes, mas às 5:30 da madrugada eu já estava prontinha, querendo ir. Minha mãe não deixou, mas às 6:00 hs, não teve quem me segurasse.
Eu precisava chegar logo e ficar livre daquilo tudo logo de uma vez.
Arrepiava-me a idéia de que poderiam perguntar tudo de novo, se eu chegasse atrasada. Se existe a margem da loucura, eu estava nela, só que os meus inocentes seis anos, não me permitiam perceber isso. Às 11:30 hs da manhã, eu estava livre do inferno para sempre! Acho que poucas vezes ao longo da vida, senti tanta emoção e alívio, como naquele dia, naquela hora...
E hoje ainda, quando olho para a fotografia da minha primeira comunhão, é impossível eu não ouvir aqueles gritos horríveis daquela catequista idiota, que provavelmente nunca descobriu quem era Deus.
Eu só descobri mais tarde, muito mais tarde, e foi a melhor descoberta que eu tive em minha vida. Depois disso, ficou fácil ser feliz!
Terê Penhabe (07.07.2004_11:35 hs)
...aos da minha geração, quem não passou por isto?
Daí eu ter sido catequista (6 anos)revolucionei o catecismo
e era conhecida como catequista Baden Powell. Começava com 20
e terminava o ano com perto de 100 garotos!